Um sonho real de panela
09/06
06:30hs
Com mais de oito décadas de existência e partindo de valores na casa dos três dígitos, uma marca francesa de artigos culinários se tornou vedete no arsenal de todo bom amante da cozinha. Por que? Nós explicamos
Flávia Pegorin
Em uma tradução aproximada, a palavra francesa creuset, em português, seria “cadinho” – aquele tipo de recipiente que suporta altíssimas temperaturas. Mas, no mundo culinário, a palavra creuset designa especificamente uma marca registrada. Le Creuset, uma empresa francesa nascida em 1925 para fabricar panelas de ferro fundido esmaltadas, sobreviveu a incontáveis avanços tecnológicos dentro do mundo culinário – e ainda hoje é sinônimo de paixão para quem cozinha por profissão ou por puro amor.*Veja alguns itens de cozinha, da tradicional marca francesa Le Creuset
Mas é um relacionamento curioso. O motivo principal é que não basta achar bonitas as cores laranja, vermelhona, azul profundo (ou a ainda sequer lançada cor-de-rosa) dos utensílios Le Creuset e decidir ter uma dessas. É preciso pagar por ela. E uma das primeiras coisas que se fica sabendo sobre essa simples panela, além de seus inúmeros pontos positivos, é seu preço.
Vamos devagar, para não assustar: acha bonitinha uma panelinha com 10 centímetros de diâmetro, perfeita para cozinhar uma porção individual? Ela sai por cerca de R$ 80. Prefere uma maior, digamos uma caçarola média ou uma panela de fato, com 33 centímetros? Se paga algo em torno de R$ 700 pela primeira e mais de R$ 1.000 pela segunda.
Depois de achar a panela uma graça, a maioria dos mortais recolhe o sorriso e vocifera contra o absurdo desses preços. É impossível para o público comum entender por que uma simples panela custaria o preço de uma geladeira. Chefs de cozinha, por outro lado, compreendem. Ou ao menos tentam.
O fabricante se apressa em explicar que toda panela Le Creuset segue rigorosíssimos padrões de qualidade – desde a escolha da matéria-prima até a produção, esmaltação e até na embalagem final. Os utensílios, para se ter uma ideia, não têm qualquer ponto de solda. Cada peça, sabe-se, passa pelas mãos de cerca de 30 artesãos até ganhar vida – e a performance que é esperada dessa “Ferrari das panelas”. Além disso, uma Le Creuset apresenta rigorosamente a mesma espessura nas laterais, no fundo e na tampa da panela, o que é garantia do cozimento mais uniforme possível.
A distribuição de calor já faz um efeito por si só, o de engrandecer o sabor e o aroma dos alimentos. Também por causa desse cozimento altamente uniforme, carnes, legumes etc. não perdem líquidos e propriedades, um belo ganho nutricional. E, para sacramentar, o esmalte vitrificado do interior da panela facilita muito a limpeza após o preparo das refeições.
“Preparar um lombo em uma panela oval da Le Creuset, por exemplo, fica uma delícia”, diz a jornalista especializada e produtora culinária Fabiana Badra Eid. “A peça de carne cabe sem dobrar na panela e o calor bem distribuído e a espessura da panela fazem com que o lombo doure por igual e sem demora. Depois, é só acrescentar água e deixar cozinhar em fogo lento, com a panela tampada, para ele desmanchar na boca”, derrete-se.
O bom é que, com o passar das décadas, todo esse preciosismo na arte de fazer utensílios não parou na área das panelas para a Le Creuset. Hoje a marca já fabrica (na cidade de Fresnoy Le Grand, França) também frigideiras, conjuntos para fondue, molheiras, travessas, réchauds. Linhas de acessórios para cozinha, como espátulas, colheres, batedores e formas de silicone, além de badaladas chaleiras e de artigos têxteis, saem dos fornos nos Estados Unidos e na Tailândia.
Mas todos os tecnicismos a respeito da Le Creuset perdem força quando comparados à paixão que ela provoca. Destinada a um público específico, amante da boa mesa e disposto a pagar o preço, qualquer panela ou travessa da marca não fica escondida em armários, mas sim é bem destacada – até por ser 100% apropriada para ir do fogão ou forno para a mesa (as tampas, por exemplo, possuem cabos também resistentes às altas temperaturas).
E, ao falar dessa devoção de chefs profissionais e amadores, é impossível não citar uma tal tradição francesa: em certas famílias, quando há um casamento, a noiva deve ganhar de presente da mãe ou da sogra uma Le Creuset, já usada. Seria um desejo de boa sorte. E vale dizer que ser um presente usado não muda em nada já que – preparados? – todos os produtos Le Creuset têm garantia de 100 anos. Um presente que poucos podem ter, mas muitos gostariam.
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